Quando olhei para a cronologia de contos do DN sombreei para mim uma
sequência que começava com Inês Pedrosa, seguia para Afonso Cruz, Gonçalo M.
Tavares, Manuel Jorge Marmelo, Mário de Carvalho, Dulce Maria Cardoso e
terminava com Pedro Mexia.
Há uma outra sequência, David Machado, JP Simões e Rui Cardoso Martins, que
também me desperta interesse prévio.
Mas, voltando ao primeiro conjunto que identifiquei, a expectativa era
alta. E, lidos que estão 5 contos desses 5 autores, a aposta parece acertada.
Logicamente a expectativa conjunta não era repartida de forma igual. Por
exemplo, a expectativa pelo conto de Afonso Cruz e Manuel Jorge Marmelo era
maior que a de Inês Pedrosa ou de Dulce Maria Cardoso. A valorização de cada
uma das expectativas tem diversas variáveis associadas, algumas delas
mensuráveis, mas quase todas elas subjectivas. Embora não importe minimamente
escalpelizá-las agora.
Quero apenas referir que o autor sobre o qual recaia a minha maior
expectativa, por motivos totalmente subjectivos, como por exemplo as capas e os
títulos dos livros, a sensação de “compra-me que é para teu bem” que uma vez
tive ao pegar num livro dele, era Manuel Jorge Marmelo.
O nono conto desta colectânea é precisamente o de Manuel Jorge Marmelo, As
Saudades que tenho de Inácia. Desta vez não direi nada sobre o conto, até
porque duvido muito do interesse que as coisas que digo possam ter. Quem o dirá
é o próprio autor. Com frases que têm tanto de cru como de certeiro, como - “E
ainda não encontrei coisa mais desigualmente distribuída do que a feiura e o
seu oposto.” – ou - “Coitado de quem vem ao mundo condenado pelos pecados que
não cometeu.”. Passagens em cuja ironia, apesar de presente, não se suplanta à
assertividade da mensagem - “Se existisse um deus moldando as pessoas do mundo,
ele seria só o mais desastrado dos oleiros.” – e com descrições que, embora
conhecidas e se saibam e desejem temporais, são de uma profundidade intrigante
nunca perdendo o toque de ironia - “Mas eu amava-a como suponho que se deva
amar uma mulher: chegava a horas para o jantar, fazia por andar lavado, evitava
beber muito grogue, entregava-lhe a féria e procurava-a na cama
(pontualmente).”.
Um conto sobre pessoas, sobre vidas, sobre a coexistência entre a
banalidade e a complexidade das relações, sobre consciência.
É, até agora, o melhor conto desta colecção (e não tenho qualquer receio de
dar ordem às coisas), o que quer dizer que o nível claramente se elevou com as
últimas publicações de contos.
E agora, se me dão licença, vou ali à Pó dos Livros comprar um livro do
Manuel Jorge Marmelo e provavelmente acrescentar mais algum à minha “wish book
list”. Depois logo conto como foi a experiência de ler um livro deste escritor.
A primeira dezena de contos ficou completa com A Porrada, de Mário de
Carvalho. Um conto insípido, sem grande desenvolvimento e com a originalidade
típica de uma fotocópia. Talvez a ideia Mário de Carvalho com este conto fosse
sugerir aos leitores que vissem o “Fight Club”, que de facto é um filme
fantástico e imperdível. Mas para isso teria sido preferível que o tivesse assumido
em jeito de nota final ao conto, pelo menos dúvidas sobre o objectivo do conto
tinham-se dissipado. Assim, não passou de uma tentativa falhada de escrever
alguma coisa com interesse.